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Por que o cartão de crédito nos faz gastar mais?

Recentemente tomei conhecimento de um estudo feito por Drazen Prelec e Duncan Simester, pesquisadores do MIT. Eles leiloaram ingressos para jogos da NBA entre um grupo de estudantes. Metade deles só podia pagar com dinheiro, a outra metade só podia pagar com o cartão de crédito.

Quem usou dinheiro, aceitou pagar US$ 28 por cada ingresso. Já os lances com cartão gastaram 113% a mais, com os ingressos custando até US$ 60. O trabalho dos pesquisadores traz uma importante constatação: existe uma propensão de gastar mais quando se pode adiar o pagamento.

Esse estudo aguçou a minha curiosidade o tema e comecei a pesquisar. De acordo com os resultados obtidos, listo abaixo oito conclusões percebidas empiricamente, simples e intuitivas que explicam a inclinação para gastar mais quando se utiliza cartão de crédito.

Esses oito argumentos se entrelaçam e podem ocorrer todos ao mesmo tempo. A subdivisão tem objetivo meramente didático para que possamos compreender como cada uma das facetas age individualmente e em conjunto, fazendo com que se gaste mais.

1º) Sem cartão de crédito, muitas compras não seriam feitas – Há diversas situações em que simplesmente compramos por possuirmos um cartão de crédito. A invenção do cartão de crédito, em uma de suas versões, teve justamente este objetivo: quando Frank MacNamara estava em um restaurante com seus amigos e percebeu que estava sem dinheiro, então em sua origem já possuía essa ideia básica de comprar sem necessariamente naquele momento ter os recursos para isso.

Em poucos anos, o cartão se popularizou e se tornou símbolo de status e sofisticação, mas na prática infelizmente tem sido muito utilizado por pessoas que não dispõem do dinheiro para fazer frente às despesas daquele momento; ou seja, muitas pessoas, se não tivessem acesso ao crédito viabilizado pelo cartão, simplesmente teriam que aguardar o momento mais oportuno para comprar.

Desta forma estariam protegidas do risco do endividamento. Ou seja, a orientação é evitar usar o cartão sem dispor de recursos para o pagamento da fatura. Agindo assim o cartão de crédito será utilizado pelos benefícios como programas de milhas, organização das contas e a praticidade de não ter que andar com dinheiro no bolso.

2º) O cartão diminui a necessidade obrigatória de planejamento – Quando uma pessoa não tem crédito à sua disposição, ela obrigatoriamente fará o planejamento para todas as suas despesas. O crédito fará com que se gaste sem tanta necessidade de planejar. Não que todos façam isso, mas ter acesso a um cartão de crédito dá liberdade para ser “irresponsável” em situações como uma saída para um barzinho, um churrasco ou outras situações.

Seriam situações em que alguém sem qualquer acesso à crédito só diria sim se tivesse certeza absoluta de que tem dinheiro no bolso ou no banco; nestas horas ter um cartão de crédito viabiliza tomadas de decisão sem obrigatoriedade de planejamento.

3º) A simbologia do cartão é mais fraca que a do dinheiro vivo em nosso cérebro – Nosso cérebro não reconhece no cartão e em outros meios eletrônicos de pagamento a força simbólica que existe no dinheiro, pois esses não são tangíveis como as moedas e cédulas. Quando estamos consumindo utilizando o cartão de crédito há uma tendência a maior permissividade do que se estivéssemos consumindo utilizando o dinheiro vivo.

4º) O limite do cartão aumenta artificialmente seu poder de compra – Infelizmente muitos somam o limite do cartão ao seu salário líquido para definir sua capacidade mensal de consumo. Essa é uma armadilha terrível e em pouquíssimo tempo a asfixia financeira passa a se fazer presente na vida de quem topa correr esse risco.

O cartão de crédito idealmente pode representar em termos de limite, no máximo 30% da sua renda líquida para que não se corra riscos de asfixia financeira. Além disso, evite ao máximo a utilização do cartão sem dispor de uma retaguarda financeira, pois as taxas do cartão são muito altas para quem se torna inadimplente e em pouco tempo o cartão que é visto como uma solução se tornará uma fonte de imensa tormenta.

05) Quando utilizamos dinheiro vivo, percebemos quando ele está acabando – A utilização do dinheiro ao invés do cartão tem uma imensa vantagem, pois percebemos quando o dinheiro está acabando e esta percepção é ausente na utilização do cartão de crédito. Quanto sem tem R$ 2.000,00 no bolso, à medida que se efetiva compras, as cédulas estarão sumindo e isso freia o consumo.

Com o cartão essa percepção fica vaga, frágil, imprecisa e isso faz com que muitos acabem extrapolando e se surpreendendo com os valores gastos através do cartão de crédito; então quer ter certeza de que não vai extrapolar, saia com dinheiro vivo.

06) O otimismo tira o limito no cartão de crédito – Dentro das finanças comportamentais se tem um conceito chamado otimismo irrealista, esta tendência foi inicialmente descrita em 1980 pelo pesquisador Neil D. Weinstein, para muitos usuários do cartão de crédito funciona ao fazer, mesmo sem base prática, supor que no momento do pagamento da fatura se terá os recursos suficientes para a quitação de tudo o que foi comprado.

Como dito anteriormente, a possibilidade de usar o cartão de crédito diminui a necessidade de planejamento, não fazendo cálculos ou fazemos contas mentais que induzem a erros. Assim, pelo otimismo irrealista, se imagina ter verba para a quitação dar despesas, sem ter. É fácil errar nas contas mentais. O cartão de crédito precisa ser utilizado de forma extremamente racional fazendo parte de um criterioso planejamento financeiro. Aqui entra a fundamental importância da educação financeira com o papel de trazer ao cidadão estas e muitas outras verdades cruciais sobre o uso do dinheiro e do crédito.

07) Satisfação postergada e o cartão de crédito – Walter Mischel, professor de Stanford, conduziu o famoso Experimento do Marshmallow, onde crianças eram convidadas a estarem numa sala frente a frente com um apetitoso marshmallow, aquelas que conseguiam resistir ao final de 15 minutos, ganhava um segundo marshmallow, a maioria delas não resistia.

Conclusão interessante é que elas foram acompanhadas ao longo da vida e se percebeu que aquelas que resistiram por mais tempo acabaram tendo mais sucesso na vida em diversos aspectos. Podemos trazer esta mesma análise ao cartão de crédito, por permitir a antecipação do consumo.

Os que são mais resistentes e pouco se influenciam pelo uso do cartão, mantendo suas contas equilibradas e em dia, são iguais àquelas crianças que resistem e conseguem ganhar o segundo marshmallow. É importante avaliar a relação com o cartão de crédito e se ele tem sido um indutor de consumo a ponto de diminuir sua paz e a saúde do seu bolso. Decida então se ele vai permanecer em sua carteira. Lutar contra a natureza humana é muitas vezes, imensa perda de tempo e de recursos, o mais sábio e prudente é não se expor as situações que representam tentação para ti

08) Dor e prazer no consumo – Este item é o mais importante e mais emblemático a respeito de como funciona o cartão de crédito. Na verdade, tudo o que eu listei anteriormente ocorre também aqui. De acordo os estudos de Raghubir e Srivastava (2008) toda a despesa gera uma dor em nosso corpo ou em nosso cérebro, concomitantemente toda compra gera um prazer para nosso corpo. Assim, todo ato de consumo envolve dor e prazer: dor do pagamento e prazer pela recompensa na aquisição do produto desejado.

É nessa lógica que o cartão de crédito entra perfeitamente como facilitador e indutor do consumo. É facilitador e indutor, pois, como dito anteriormente, o cartão facilita em muito a decisão de consumir mesmo sem o dinheiro para o pagamento. Agora precisamos entender como funciona dentro do nosso cérebro a diferença entre comprar no dinheiro e comprar com o cartão, quando compramos com dinheiro, pelo forte simbolismo deste, a dor é bem maior e por isso compramos com muito mais comedimento quando o fazemos com dinheiro em espécie.

Já quando utilizamos o cartão de crédito, a dor é bem menor pelo simbolismo desse e também pela postergação do pagamento, já que a aquisição é feita na hora e o pagamento é colocado para vários dias depois, além disso, podemos ainda dividir com cartão de crédito, fazendo com que essa dor além de ser deslocada no tempo em relação ao prazer do consumo, também possa ser diluída em diversas pequenas parcelas mensais.

Esses últimos argumentos são os principais para entender por que se tende a gastar muito mais quando utilizamos o cartão de crédito. A dor é muito menor com o uso do cartão, então, se você percebe que seu cartão passou de aliado a um grande problema, é hora, ou já passou da hora de deixá-lo em casa.

Raimundo Alves Caldas – é presidente de Pernambuco da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira, Pós Master em Educação Financeira DSOP – UNIS, instrutor SESCOOP-PE e SEBRAE-PE, atua como Educador Financeiro desde 2006; como consultor financeiro desde 2014 e como coach financeiro desde 2017. Com mais de 1.200 horas de cursos, palestras e atendimentos.

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