A Quaresma é um tempo especial para os cristãos. É o período em que somos convidados a olhar para dentro de nós mesmos, rever nossas atitudes e buscar um reencontro mais profundo com Cristo. Tradicionalmente, esse caminho passa pela oração, pelo jejum e pela penitência — gestos que nos ajudam a crescer espiritualmente e a viver com mais consciência.
Mas talvez a Quaresma também seja um tempo privilegiado para refletirmos sobre algo muito presente em nossas vidas:a forma como lidamos com o dinheiro.
Vivemos em um mundo que nos incentiva constantemente a consumir mais, comprar mais e desejar mais. Muitas vezes gastamos sem necessidade, parcelamos sem planejamento e assumimos compromissos que depois se tornam motivo de preocupação e ansiedade. Não é raro encontrarmos famílias inteiras vivendo pressionadas por dívidas, preocupadas com contas a pagar e sem tranquilidade para planejar o futuro.
A Quaresma nos convida a um caminho diferente.
O jejum nos ensina a renunciar ao excesso. A penitência nos ensina a ter disciplina. A oração nos ensina a confiar mais em Deus. Esses três pilares também podem transformar nossa relação com o dinheiro.
Talvez a verdadeira penitência para muitas pessoas não seja apenas deixar de consumir certos alimentos, mas aprender a dizernão ao consumo desnecessário, evitando gastos impulsivos e escolhendo com mais sabedoria aquilo que realmente tem valor.
Renunciar ao supérfluo é abrir espaço para o essencial.
Jesus nos ensina no Evangelho:
“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”
Essa frase nos convida a refletir profundamente sobre nossas escolhas. Aquilo em que gastamos nosso dinheiro revela muito sobre aquilo que valorizamos na vida.
Quando gastamos sem consciência, muitas vezes perdemos a paz. Quando organizamos melhor nossa vida financeira, ganhamos tranquilidade e liberdade. Cuidar do dinheiro também é uma forma de cuidar da família e da própria vida.
A educação financeira pode começar dentro de casa. Pequenos ensinamentos, como amesada semanal associada ao mérito, à responsabilidade e à conquista, ajudam crianças e jovens a compreender o valor do dinheiro e do esforço desde cedo. Ensinar os filhos a lidar com pequenas quantias hoje pode ajudá-los a tomar decisões mais equilibradas no futuro.
Mas a Quaresma não é apenas tempo de renúncia. É também tempo decaridade.
Somos chamados a olhar para o próximo, especialmente para aqueles que mais precisam. A tradição cristã recomenda de forma especial, neste período, a prática daesmola, que não significa apenas dar dinheiro, mas partilhar com generosidade aquilo que temos com quem necessita. Pequenos gestos de solidariedade podem transformar a vida de quem recebe e o coração de quem doa.
Nesse contexto, asofertas e o dízimoocupam um lugar importante na vida cristã. Contribuir com a Igreja e com ações de solidariedade não deve ser visto como uma obrigação, mas como um gesto individual espontâneo de fé e de gratidão. É reconhecer que tudo o que temos é dom de Deus e que somos administradores daquilo que recebemos.
O apóstolo São Paulo ensinava às primeiras comunidades cristãs:
“Cada um contribua segundo decidiu em seu coração, não com tristeza nem por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria.”
A prática do dízimo e das ofertas também nos ensina organização e responsabilidade. Quando aprendemos a separar uma parte do que recebemos para Deus e para ajudar o próximo, desenvolvemos consciência sobre o uso do dinheiro.
Muitas pessoas acreditam que só podem contribuir quando sobra dinheiro. Na prática, quase nunca sobra. A experiência mostra que quem organiza suas finanças e planeja seus gastos consegue contribuir com mais tranquilidade e viver com mais equilíbrio.
Talvez a penitência desta Quaresma possa significarmenos gastos desnecessários, menos impulsividade e mais consciência.Pequenas renúncias podem gerar grandes resultados ao longo do tempo.
Assim como a Quaresma nos chama à conversão espiritual, ela também pode ser um convite a umaconversão financeira— uma mudança de hábitos que traz mais equilíbrio, mais tranquilidade e mais paz.
Administrar bem o dinheiro que Deus colocou em nossas mãos é também uma forma concreta de viver a fé no dia a dia.
Talvez uma das penitências mais valiosas que possamos viver nesta Quaresma seja aprender a administrar melhor aquilo que Deus colocou em nossas mãos. Viver com mais simplicidade, mais gratidão e mais responsabilidade não é apenas uma escolha financeira — é também um caminho de crescimento espiritual.
E a própria Palavra de Deus nos lembra:
“Quem é fiel no pouco também é fiel no muito.” (Lucas 16,10)
Que este tempo de Quaresma seja também um convite a uma conversão interior que alcance não apenas a vida espiritual, mas também nossas atitudes diante do dinheiro, do consumo e da partilha.
Quando aprendemos a viver com equilíbrio, fé e consciência, descobrimos que a verdadeira riqueza não está apenas no que possuímos, mas na paz que carregamos no coração.
Sergio Sarro
@sergiosarro_
Contador e Educador Financeiro
Presidente Estadual da ABEFIN MT, RO e AC







