Estudo liga dificuldades financeiras ao agravamento da saúde mental de brasileiros
Uma pesquisa inédita revela que oito em cada dez brasileiros com diagnóstico de transtorno mental apontam as dificuldades financeiras como fator relevante no surgimento ou na piora do próprio quadro psicológico. O levantamento, feito pela Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (Abefin) em parceria com o Instituto Axxus, ouviu mil pessoas com diagnósticos formais de ansiedade, depressão, estresse crônico ou síndrome de burnout, conforme apurou o InfoMoney.
Na avaliação de Renata Alves Paes, do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o dinheiro aparece na origem de boa parte do sofrimento emocional. A professora explica que a instabilidade financeira mantém o indivíduo em estado de alerta praticamente contínuo, e o corpo passa a interpretar a situação como uma ameaça à sobrevivência. Esse estresse crônico, acrescenta, figura entre os principais fatores de adoecimento emocional.
Contas básicas, dívidas e renda curta dominam os relatos
Entre os desafios citados pelos entrevistados, a dificuldade de quitar despesas essenciais lidera, mencionada por 69,4% dos participantes. Em seguida aparece a presença de dívidas, apontada por 61,2%, a renda curta diante das necessidades cotidianas, citada por 53,6%, e o desemprego, presente na realidade de 31,1% dos ouvidos.
Eduardo de Brito, professor de Contabilidade da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que o país atravessa uma crise financeira ampla. Para ele, ainda que existam postos de trabalho disponíveis, a média salarial segue baixa. O docente também observa que a inflação oficial, medida a partir de itens da cesta básica, não captura integralmente o encarecimento sentido no cotidiano. Além das questões estruturais da economia, ele cita fatores pessoais, como a falta de controle e o consumo sem consciência, entre os responsáveis pelo endividamento.
Reinaldo Domingos, presidente da Abefin e da DSOP Educação Financeira, sustenta que ninguém resolve uma situação de endividamento de uma só vez, mas é possível iniciar hoje o diagnóstico das dívidas, organizar os compromissos, evitar novos débitos, renegociar quando houver espaço e estabelecer uma primeira meta. Segundo ele, quando existe um plano, o futuro deixa de ser apenas fonte de preocupação e passa a ser algo sobre o qual a pessoa consegue agir. A metodologia DSOP trabalha essa mudança de comportamento em quatro etapas: diagnosticar, sonhar, orçar e poupar.
A psicóloga Angie Pique, professora da Estácio, observa que recuperar alguma sensação de capacidade de ação diante dos problemas ajuda a reduzir o sentimento de impotência, sem ignorar as limitações sociais e econômicas reais enfrentadas por esse público.
Onde buscar apoio financeiro e atendimento psicológico
Para quem precisa reorganizar as contas, a Defensoria Pública mantém um Núcleo de Defesa do Consumidor voltado a superendividados, com apoio na renegociação de dívidas e no reequilíbrio do orçamento doméstico; o agendamento é feito pelo telefone 129. O Instituto Sicoob oferece orientação individualizada sobre orçamento pessoal e familiar, endividamento, investimentos e outros temas por meio das Clínicas Financeiras, com agendamento no site da instituição.
O Procon Carioca auxilia na renegociação de dívidas e em casos de cobranças indevidas, com encaminhamento para acompanhamento psicológico nas Salas do Consumidor Carioca. Já o Procon-RJ presta orientação jurídica e educação financeira a consumidores que precisam pagar débitos sem comprometer necessidades básicas, com atendimento pelo WhatsApp (21) 98263-5085. A plataforma Serasa Limpa Nome permite negociar pendências com empresas parceiras, também com atendimento nas agências dos Correios.
No campo da saúde mental, a Estácio oferece atendimentos psicológicos gratuitos em diversas unidades do Rio de Janeiro. O IBMR disponibiliza o serviço a preço popular no Catete e na Barra da Tijuca. A Uerj tem atendimento gratuito, com inscrições abertas no início de cada período letivo, e a UFF informa que o cadastro para o serviço gratuito de Psicologia Aplicada está temporariamente fechado. A Veiga de Almeida realiza plantões psicológicos gratuitos e sem agendamento na Tijuca e na Barra, com possibilidade de encaminhamento para tratamentos regulares de custo social.







