Caixinhas de instituições financeiras ganham espaço entre correntistas e prometem render mais do que formas tradicionais de guardar dinheiro.
O brasileiro está tirando dinheiro da caderneta de poupança. No primeiro semestre deste ano, segundo o Banco Central (BC), os saques superaram os depósitos em R$ 39,3 bilhões. Quando o assunto é guardar dinheiro, outras opções têm ganhado espaço, como os cofrinhos ou caixinhas dos aplicativos de bancos e carteiras digitais, que prometem rendimentos mais elevados.
O EXTRA pediu para instituições financeiras — seis responderam — que informassem as regras de cada cofrinho (confira no final da matéria). O levantamento mostra que “cofrinho” é, na prática, somente o nome da embalagem. Por trás dele, podem existir produtos com rendimentos e proteções diferentes.
Na maioria dos casos, o dinheiro vai para um CDB ou um RDB do próprio banco — títulos em que o cliente, na prática, empresta dinheiro à instituição e recebe juros —, com a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que devolve até R$ 250 mil por CPF caso o banco quebre.
Já o rendimento anunciado, quase sempre a partir de 100% do CDI — a taxa que acompanha de perto os juros básicos da economia —, pode subir nas versões “turbinadas”, com teto de valor e condições.
Por que os bancos criaram os cofrinhos
A oferta não é obra do acaso. Danilo Jusan, reitor do Ibmec-RJ e especialista em Finanças, explica que o dinheiro parado na conta corrente rende pouco para o banco: parte fica retida no recolhimento compulsório e tem uso restrito. Ao transformar esse saldo numa aplicação, a instituição ganha liberdade para emprestar o dinheiro e lucrar mais com a diferença de juros, o chamado spread.
— O banco cria mecanismos que transformam o dinheiro que está parado em um dinheiro que está sendo remunerado. Ajuda o investidor, sem dúvida. Mas, para o banco, também tem a perspectiva de gerar um retorno maior com as operações que ele passa a fazer com esse recurso — afirma Jusan.
Ele lembra ainda que não existe uma regra específica do Banco Central para os cofrinhos. Cada banco decide onde colocar o dinheiro. É por isso que a proteção pode variar de uma instituição para outra, mesmo quando o produto tem o mesmo apelido na tela do aplicativo.
Aplicações por objetivos
Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira dos Profissionais de Educação Financeira (Abefin) e da DSOP Educação Financeira, explica que, diferentemente da poupança, que é uma modalidade de investimento tradicional, a caixinha funciona como uma ferramenta que pode reunir diferentes tipos de aplicações.
— Os cofrinhos são ferramentas que ajudam as pessoas a separar recursos para sonhos específicos. Funcionam como compartimentos dentro da conta, nos quais o dinheiro pode permanecer apenas reservado ou ser aplicado automaticamente em produtos financeiros, como CDBs, RDBs ou fundos de investimento.
Simulações de rendimento



Para a simulação foram considerados:
Poupança: remuneração de 0,5% ao mês (cenário em que a Selic está acima de 8,5% ao ano) e sem Imposto de Renda Cofrinho 100% CDI: CDI aproximado de 14,15% ao ano
Cofrinho 120% do CDI: 120% da taxa acima Imposto de Renda descontado dos cofres CDI: 17,5% sobre o lucro (1 ano) e 15% sobre o lucro (5 anos)
* Valores líquidos, já com IR descontado
** Essa é uma simulação, não uma garantia de rentabilidade. O resultado real pode mudar caso CDI, Selic ou TR sofram alterações no período
Fonte: Reinaldo Domingos, presidente da Abefin e da DSOP Educação Financeira
Para Domingos, o ideal é usar o cofrinho para guardar recursos destinados a objetivos de médio e longo prazos.
— Pode ser a viagem da família, a faculdade dos filhos, a compra de um imóvel, uma reforma ou outro sonho que seja relevante — afirma.
Ele alerta, porém, que a maior rentabilidade nem sempre é a melhor escolha:
— Uma família precisa de um investimento com liquidez diária porque o dinheiro faz parte de uma reserva para situações inesperadas. Em outros casos, um prazo maior pode fazer sentido porque o sonho será realizado daqui a anos. A escolha deve considerar a realidade de cada família e não apenas o rendimento anunciado.
Espalhar em várias caixinhas funciona?
Uma dúvida comum é se vale a pena dividir o dinheiro em várias caixinhas, uma para cada objetivo. Para Gleiner, essa ideia tem base no estudo do comportamento. O professor lembra o conceito de contabilidade mental, do economista Richard Thaler, ganhador do Nobel, que fala sobre o cérebro não tratar todo dinheiro como igual. Um valor com a etiqueta “viagem de dezembro”, por exemplo, é mais difícil de gastar do que dinheiro solto na conta. O rótulo cria uma barreira que protege a meta.
Mas ele faz uma ressalva importante. Ter várias caixinhas em um mesmo banco não é o mesmo que diversificar.
— É como guardar dinheiro em dez envelopes dentro da mesma gaveta: está organizado, mas continua tudo na mesma gaveta. Dez caixinhas no mesmo aplicativo são dez etiquetas coladas em um único investimento, do mesmo banco — compara.
Na prática, diz o professor, de três a cinco caixinhas dão conta: uma para emergência, outra para objetivo de curto prazo e mais uma de médio. Acima disso, os valores ficam pequenos demais e o rendimento pode perder força.
Atenção ao prazo de resgate
Há detalhes que podem transformar o rendimento em prejuízo. Um deles é o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que incide sobre resgates feitos antes de 30 dias da aplicação. Quanto mais cedo o saque, maior a alíquota. Segundo Gleiner Vinicius Costa, esse imposto leva 96% do rendimento se o resgate for feito no primeiro dia e vai caindo dia a dia, até zerar no trigésimo. Se o saque acontece no quinto dia, por exemplo, o IOF leva 83%.
— É o mesmo valor no mesmo lugar. Mudou só o tempo. Por isso, a dica que eu mais repito é: deixe o dinheiro “dormir” um mês — afirma.
Mas o IOF é somente uma das regras a observar. Também há incidência de Imposto de Renda sobre os rendimentos, pela tabela regressiva: quanto mais tempo o dinheiro fica aplicado, menor a alíquota. A advogada e educadora financeira Aline Soaper resume o que o cliente deve checar antes de guardar o dinheiro:
— O cliente precisa observar qual o rendimento oferecido, pois precisa ser acima de 100% do CDI. Deve observar ainda se tem regras para saque antes de algum prazo estabelecido. Além disso, deve checar se a oferta tem informações sobre regras para manter o tempo mínimo investido. Algumas opções pagam mais se o dinheiro ficar na caixinha por mais tempo.
Reserva de emergência pode ficar no cofrinho?
Gleiner diz usar o confrinho como reserva de emergência é válido, mas exige cuidado. O primeiro ponto é a liquidez — a rapidez com que o dinheiro volta para a conta. Vale conferir se o resgate cai no mesmo dia e em qualquer horário, porque alguns aplicativos só processam em horário comercial. O segundo é não concentrar toda a reserva num banco pequeno só porque ele paga mais.
— O FGC funciona, mas leva um tempo para devolver o dinheiro. E emergência, por definição, não espera — afirma o professor.
O que cada banco oferece
As respostas das seis instituições confirmam a variedade por trás dos cofrinhos e caixinhas digitais.
- Banco do Brasil
O Cofrinho BB é o único do grupo analisado que não é um CDB. Os recursos vão para um fundo de renda fixa simples, que busca acompanhar a taxa Selic e tem liquidez diária. Por ser fundo, não há cobertura do FGC, e a tributação segue as regras dos fundos de renda fixa de curto prazo. A aplicação inicial parte de R$ 0,01 — um centavo —, sem exigência de adesão a programas ou de movimentação mínima mensal. Aportes e resgates podem ser feitos em qualquer dia e horário pelo aplicativo. O produto permite criar metas, programar aportes e receber contribuições de outras pessoas e de qualquer banco, pela função Chega Junto, com uma chave Pix interna e exclusiva para cada solicitação.
- Itaú
Os cofrinhos do Itaú são um CDB DI emitido pelo próprio banco, com rendimento em todo dia útil e 100% do CDI para todos os clientes. O aporte mínimo é de R$ 1 e há cobertura do FGC de até R$ 250 mil por CPF. Incidem Imposto de Renda pela tabela regressiva e IOF nos primeiros 30 dias. O resgate cai na conta imediatamente, com uma exceção: o dinheiro que acabou de ser guardado. Se o depósito foi feito até as 20h de um dia útil, o valor fica disponível para resgate a partir do dia útil seguinte; se foi feito após as 20h, no fim de semana ou em feriado, o prazo pode chegar a dois dias úteis.
- Nubank
As caixinhas são estruturadas em RDB emitido pelo próprio banco. Na versão com liquidez imediata, rendem 100% do CDI, com crédito instantâneo na conta no resgate. A Caixinha Turbo paga 115% do CDI para clientes Roxinho que movimentarem pelo menos R$ 900 na conta a cada ciclo de 31 dias, e até 120% para clientes NuCel, Nubank Croma e Nubank Ultravioleta. Há ainda os RDBs planejados, com prazo de três meses a dois anos e rendimento de até 104% do CDI. Não há valor mínimo para começar nem taxa de administração ou manutenção. Todas as modalidades têm FGC de até R$ 250 mil por CPF, e incidem Imposto de Renda pela tabela regressiva e IOF em resgates feitos em até 30 dias.
- C6 Bank
O C6 Bank tem o Investimento por Objetivo, disponível na C6 Yellow, conta voltada para crianças e adolescentes de até 18 anos e vinculada à conta dos responsáveis. Permite criar até três metas e aplica o dinheiro em um CDB de liquidez diária, que rende 102% do CDI, a partir de R$ 10. Os responsáveis recebem notificações de aportes e resgates. Existem outras opções para adultos com características semelhantes, mas que não recebem o mesmo nome. Há FGC de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, e incidem Imposto de Renda pela tabela regressiva e IOF antes de 30 dias. O banco informa que as taxas podem variar ao longo da semana e que clientes com assessor de investimentos têm rentabilidade superior.
- PagBank
No cofrinho do PagBank, os valores são aplicados automaticamente em um CDB de renda fixa com liquidez diária. O Cofrinho Turbinado pode pagar até 130% do CDI, mas essa taxa vale apenas para saldos de até R$ 10 mil e está condicionada ao cumprimento de um prazo mínimo de permanência. O que passar desse limite rende 100% do CDI, também com prazo mínimo. O valor inicial é de R$ 1, e o dinheiro aplicado também vira limite do cartão de crédito. Há cobertura do FGC e não há taxa de administração ou manutenção, mas incidem Imposto de Renda sobre os rendimentos e IOF em resgates feitos em menos de 30 dias. O resgate pode ser pedido entre 9h e 21h; fora desse horário, fica agendado para o próximo dia útil.
- Inter
O Porquinho do Inter também é um CDB, com cobertura do FGC. Nas versões por objetivos, para pessoa física e jurídica, rende 100% do CDI. O valor mínimo é de R$ 1, e incidem Imposto de Renda pela tabela regressiva e IOF em resgates feitos antes de 30 dias. O resgate cai na conta imediatamente, mas fica indisponível das 21h55 à 1h.







